17 de outubro de 2012

O PASSADO BATE À PORTA


Estava de joelhos, rezando e pedindo mais uma vez que o dia terminasse bem quando escutou passos vindo em sua direção e um cheiro familiar. Lembrava loção pós-barba e Trident de menta. Subitamente sentiu o estômago desabar. O cheiro parecia se aproximar cada vez mais. E o medo parecia crescer cada vez mais dentro de si. Ela estava dentro de uma igreja e era para se sentir confortável, em paz. Mas sentia-se cada vez mais apavorada. Não podia ser ele. Mãos gentis cobriram-lhe o rosto. Aquela voz tão familiar afinal perguntou:
- adivinhe quem é?

Pergunta em vão. Ela sabia muito bem quem era. Mas ela apenas fez um pedido, quase uma súplica, aproveitando que estava de joelhos mesmo, se sentindo apavorada, submissa e por que não dizer, um tantinho humilhada? Estava em desvantagem, não tinha nem como se defender, como fugir, estava de mãos atadas. Sua voz trêmula enfim pediu: vá embora!

As mãos gentis ainda lhe envolviam e sua voz era doce quando disse:
- Precisamos conversar!
- Não tenho o que falar com você. - ela disse,agressiva.
- Até quando você vai fugir de mim, Alê? 
- Pela eternidade.

Não gostava do jeito que Guilherme - era assim que ele se chamava - a perseguia desde que eles romperam. Nunca se conformou com o término do relacionamento. Na verdade Alê sentia-se mais como um objeto ou brinquedo caro do que uma pessoa quando namorava com ele. Era apaixonada por ele, mas ao mesmo tempo sentia-se paradoxalmente intimidada e amedrontada. Principalmente depois que ele lhe deu uma bofetada. Aí percebeu que era melhor parar por ali. E depressa.

Sofreu muito. Chorou demais. Achou que ia enlouquecer. E ele em contrapartida a perseguia, 
lhe ligava de hora em hora. Enviava rosas. Chocolates. Chegou ao cúmulo de mandar uma joia da Vivara. Estava irredutível. O tapa ainda ardia em seu rosto mas finalmente sentia-se aliviada. Mudou o telefone. Saiu das redes sociais. Mudou de endereço. E viveu em paz até aquele momento em que estavam agora. Não conseguia imaginar como ele a encontrou.

- O que você quer, Guilherme?
- Você de volta! - ele respondeu, decidido.
- Isso não vai ser possível. - ela retrucou.
- Por que você simplesmente não supera e me esquece? Você nem me ama mais, você só está com orgulho ferido.

Neste momento, as mãos gentis de Guilherme tornaram-se agressivas. Pegou-a pela cintura e colocou-a de frente para ele, que continuava muito bonito, muito impecável e elegante em suas roupas caras. Ela continuava despojada, usando calça jeans e camiseta, os cabelos presos displicentemente em um coque. O olhar assustado dela cruzou o olhar decidido dele. Ele não colocaria mais as mãos nela. 

Por isso mesmo não se intimidou e acertou um soco no rosto tão lindo que amou um dia. Dane-se que estava sendo violenta, estúpida, revidando da mesma maneira truculenta dele. Ainda olhou para trás e pediu perdão à Virgem Maria, rapidamente. O medo deu lugar a coragem. Era uma sobrevivente. Vê-lo tão bonito mexeu com seus sentimentos, mas ele já havia lhe dado provas de que a machucaria de novo se fosse necessário. Então julgou correto machucá-lo antes. Por ela e por todas as outras que ele já machucou.

  



Nenhum comentário:

Postar um comentário