Ler Comer, Rezar, Amar (Elizabeth Gilbert) foi muito difícil. E por que foi tão difícil? - você me pergunta. Quando eu via o livro exposto nas livrarias achava que se tratava de mais uma história tratando de guerra, repressão à mulher e adjacências. Uma mulher que se agarrava a esses três verbos como única chance de sobreviver.
De certa forma, o livro fala de uma mulher que resolveu colocar esses três verbos em prática por um ano inteiro. O que ocorre é que enquanto não saía o novo livro da Marian Keyes
resolvi ler Liz Gilbert. A princípio baixei o livro da net (não façam isso em casa!) e ficava lendo
o livro no escritório quando o telefone parava de tocar e/ou ficava às moscas. Consegui ler a primeira parte inteira no PC, mas sempre achei muito chato ler livros digitalizados e acabei deixando a leitura de lado.
Resolvi partir para a versão física do livro e depois de muita luta e procura nos camêlos e livrarias da vida, consegui um exemplar! Já sabia que Liz Gilbert era escritora infeliz no casamento, sem alguma religião, cheia de vontades.Mais ou menos parecida comigo, Daniela, em meados de 2008.
Voltando a Liz, mais do que ser uma mulher cheia de vontandes, ela executava essas
vontades e levava uma vida que vista de longe parecia ser feliz. Parecia. Liz não sabia dizer NÃO aos planos que a sociedade discretamente lhe impunha:
- se você casou, tem uma casa e uma carreira consolidada, só falta um filho para abençoar essa família!
E a ideia de procriação era tão distante dos planos que ela tinha para si que isso acabou por arrastá-la para uma depressão e destruir seu casamento. Você deve ter pensado que era só ela chegar e dizer que não ia ter filho coisa nenhuma, mas as coisas não são tão fáceis assim.Ainda mais quando se está em um relacionamento.
Se tem alguém em quem apostamos TODAS as nossas fichas, esse alguém é o nosso (a) parceiro (a).Reflita comigo: - algum famoso que a gente admira
pode nos decepcionar ao longo do tempo.E a gente pode relevar sem mágoas.
Isso vale para relações de amizade, entre irmãos, pais.A gente demora um
tempo para digerir as dores, mas depois de um tempo relevamos.
Curiosamente essa relevância não se aplica em um relacionamento amoroso.
Não se aplica porque a gente não admite que o homem/mulher que a gente
ama frustre nossas expectativas, não corresponda as nossas vontades.Não
permitimos falhas, tampouco erros.Por isso quando explode uma crise, a
gente não pensa que vai passar.Não chama para conversar.Simplesmente nos
calamos e nos trancamos em nosso universo particular e assiste a tudo ruir,
como um castelo de cartas.(Se você chama pra DR, desculpe).
Me identifiquei com a crise da Liz.Também estive em um relacionamento onde
me sentia pressionada a ser magra, bonita, boa profissional, boa de cama, boa
futura mãe para os filhos que eu não queria gerar aos 22 anos de idade!
E a pressão foi me transformando em uma workaholic acima do peso que quando
não vivia chorando, estava se entupindo de junk food.
Sim, eu busquei entendimento.Conversamos.Fizemos promessas.Fizemos regime.
Tudo o que estava ao me alcance foi feito.Mas nada aconteceu.
Eu sofria porque via o relacionamento morrer.E com ele, todos os planos.Eu sofria
porque era incocebível viver sem ele.Sofria por perceber o quão frágil eu estava.
Sabe aqueles momentos que chamamos de "cinco minutos"?
Ou então situação-limite?
Esse momento chegou e tanta pressão e cobrança foram insuportáveis.Não sabia dizer
o que aconteceu, mas sabia que não admitiria mais tanta dor, raiva, sofrimento e lágrimas
por nada.Foi o fim.
E mais uma vez me identifiquei com a Liz.Assim como ela, quis dar um tempo.
Não tinha verba para viajar, então dei férias para o meu cérebro.E nesse meio tempo
conheci outro cara.
E assim como a Liz mergulhei em uma paixão fulminante.De mão única.
Esse cara não precisava de mim o tanto que eu precisava dele.E ficamos assim, em
um relacionamento onde quando eu estava legal tudo fluía bem, mas quando eu exigia
um pouco mais, já causava desconforto.
Inconscientemente, esse cara me apresentou a valores que eu não me ligava até então:
- bem estar, qualidade de vida e espiritualidade.
Nesse ponto eu saí na frente da Liz - eu SEI rezar, me considero até devota de Santo
Expedito ( mas manjo nada de ioga, uma pena).
Até hoje não consigo meditar.Minha mente é terrivelmente inquieta.E naqueles trechos do
livro que ela manda a mente se aquietar, ou reclama porque o cérebro nao para quieto, me
vejo representada ali.
E com a Liz me toquei de que, mais do que um parceiro e um relacionamento estável, ou
qualquer outra coisa que eu venha a desejar ao longo do caminho, eu quero é CONTENTAMENTO.
Essa sensação de serenidade que ela encontrou no ashram indiano.Essa sensação que ela descreveu
como "estar na palma da mão de Deus".
De uns tempos para cá tenho notado que pareço uma velha (saio raramente, tenho gostado de dormir
e acordar cedo, não tenho feito muitas loucurinhas rock 'n' roll), mas agora é oficial: - não tenho porque
ficar virando noites celebrando ano-novo, carnaval e adjacências quando não estou a fim.
Se eu perco um show hoje, nem me sinto mais loser, como me sentiria outrora.
Não me sinto loser por não ter namorado ou um milhão de amigos.
Nesses pontos sinto que evoluí, pois aprendi a desfrutar da minha própria companhia e ficar sozinha
não me assombra mais.Simplesmente gosto de ficar em silêncio e paradoxalmente escutando a vida
pulsar ao meu redor.
(Ficar em silêncio tem sido bom porque passo o dia falando no trabalho, com os amigos, etc).
Depois que vi as dificuldades de Liz para travar uma aproximação com Deus e todo o processo tortuoso e emocionante de perdão a si mesma pelo qual ela passou, passei a ser mais tolerante comigo mesma.
Não virei uma santa, longe disso.Pelo contrário, recentemente me descobri como uma criatura pavio
curto, que se irrita com qualquer coisa que saia do meu controle.
Me envergonho disso.E sei que é difícil ficar 100% em um estado de contentamento.E o desafio está
aí: - como ficar serena com chefe cobrando, cliente reclamando, trânsito, contas acumulando, os dias
passando e a rotina matando parte de seus planos e sonhos.A vida passando e a sensação de que você
não vai deixar um grande legado para a humanidade, como diria um amigo, o Rafael Cortez.
Todos nós temos demônios e inquietações que sempre vem nos assombrar em algum momento.
Mesmo na Itália, comendo tudo o que queria, falando o idioma que gostava, a depressão assombrava
Liz.Mesmo na Índia, com a oportunidade de meditar, ela não conseguia aproveitar o momento, pois
se distraía fazendo planos de quando ia voltar lá para meditar, mas ela JÁ ESTAVA LÁ!Por que não
aproveitar melhor os momentos, por que não aproveitar já?
Graças a Deus, ela se corrigiu.Se perdoou.Se aceitou.Seguiu em frente.Porque não adianta nada passar
uma vida inteira se culpando por X coisas.
Pensando assim, mais que um chick lit, parece que Comer, Rezar, Amar é um livro de autoajuda fantasiado
de livro pra mulherzinha, mas é muito bom.Era o que eu precisava, pois eu também tive de escolher e seguir
adiante.
Hoje meu maior desafio é executar os planos e ideias que pipocam na minha mente inquieta.Lidar com o cansaço que quatro horas diárias de ônibus proporcionam.Não me pressionar por resultados.Cada vez mais buscar o contentamento.Há dias que eu consigo há dias que consigo é melancolia mesmo.
Uma sexta-feira fria e cinzenta, ao voltar para casa caindo de sono, ao pegar o segundo ônibus da noite, rumo a Zona Norte, enquanto observava os bancos vazios, fiquei pensando que, gostaria de, naquele momento, estar na palma da mão de Deus.Acabei cochilando.Um sono tão gostoso e profundo que nem
meu celular tocando foi páreo para me despertar.Só em casa vi as chamadas perdidas.Considero esse
episódio como um sinal de que, mais do que estar nas palmas das mãos de Deus, Ele está perto de mim.
Dentro de mim.
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