2 de maio de 2012

CRESCER



Eu ainda acho estranho me chamar de "mulher". Parece que foi ontem que eu era uma menina de franja e moletom que gostava de ir à escola. E passava as tardes brincando de "polícia e ladrão" com a Erika e jogava futebol ou vôlei com a parede, porque meu irmão ia para escola a tarde e eu ficava sozinha quando não tinha com quem brincar. A menina que gostaria de ser a Kimberly, dos Power Rangers.

Eu ainda me vejo brigando com Rodrigo porque queria um pneu de trator. Lembro que íamos a beira do lago e gritávamos. Os sapos que viviam lá coaxavam assustados e nós saíamos correndo, porque em nossa imaginação, eram índios que viriam correndo atrás da gente.
A adolescente que gostaria de ser a Posh Spice, mas foi rebaixada a ser a Mel B (ninguém queria ser a Mel B, seria preconceito por ela ostentar um black power de responsa na época que Wannabe estourou?)

Não usava nada que não fosse jeans e camiseta, não importa se era inverno ou verão. Eu lia a Capricho. Lia a Atrevida. Lia romances da Agatha Christie. Lia até bula de remédio naquela época ociosa. Brigava com meu irmão porque ele não arrumava a cama. Não ia à feira, ao mercado, ao açougue. Só ia a biblioteca, que fica no centro de Guarulhos.

Só calçava tênis All Star e sandálias Havaianas. Pintava os olhos de preto e passava camadas generosas de rímel para ir à escola. Pintava as unhas de rosa neon da Impala. Usava uma temp tattoo no pescoço (uma rosinha discreta). Os cabelos tingidos de acaju viviam presos em rabos de cavalo, maria-chiquinhas e trancinhas.

Jogava baralho com os amigos do meu irmão como se não houvesse amanhã. Fazia um bolo de chocolate muito gostoso. Assistia MTV 18 horas por dia. Escrevia letras de música. Escrevia os seguintes versos em qualquer lugar: Enquanto aqui estiver/ Vou fazer o que quiser/ Quer ser feliz? Tente.

Tinha dois amigos inseparáveis: a Tati e o Ronaldo. Comprava canetas em gel pink, com glitter e cheirinho de morango, iogurte. Me apaixonava. Desencanava. Fazia drama. Era bem mais tímida do que sou hoje. Posso descrever meu primeiro beijo com uma palavra: repulsa.
Posso descrever meu último beijo com outra palavra: gostoso.
Escrevia. Escrevia. Escrevia.
Eu ainda escrevo. Uma mulher que escreve. E lê. E olha atentamente em qualquer direção.
Muita coisa mudou aqui, mas a sensação que eu tenho é que continuo a mesma. Ou quase.

PS: a foto da ampulheta é para ilustrar a velocidade do tempo.





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